Para analista americano, “Bolsonaro transformou evento nacional – 7 de setembro – em campanha política”

Para analista americano, “Bolsonaro transformou evento nacional – 7 de setembro – em campanha política”

Para analista americano, “Bolsonaro transformou evento nacional – 7 de setembro – em campanha política”

Nas comemorações em Brasília, partindo por do bicentenário da Independência do Brasil, que ocorreu nesta quarta feira, no dia 7 de setembro, o atual presidente, Jair Bolsonaro do PL, usou seu momento de fala não para expor o momento, mas para falar em tom eleitoral, repetindo ameaças e pedindo votos.

Isto não passou despercebido pelo mundo a fora, um dos que falou a respeito é Anthony Pereira, um brasilianista, professor e diretor do Kimberly Green Latin American and Caribbean Center da Florida International University, nos Estados Unidos, para o mesmo, tal momento é algo novo e nunca visto nesses últimos 37 anos.

De acordo com seu pensamento e conhecimento adquirido, Bolsonaro tornou um momento de celebração nacional da luta dos antepassados numa campanha política, testando de frente a democracia brasileira.

E ainda finaliza dizendo, “trata-se de um desserviço à democracia brasileira e esse dano já está feito, não importa qual seja o resultado em outubro”.

Perguntas e respostas, de alguns trechos da entrevista:

Pergunta da BBC News Brasil: Falando em Brasília por ocasião das comemorações do bicentenário da Independência, o presidente Jair Bolsonaro (PL) fez discurso eleitoreiro, repetiu ameaças e pediu votos. Algo lhe surpreendeu?

Responde Anthony Pereira: O que vimos em Brasília não foi nada inesperado. Bolsonaro acredita que encarna a voz do povo e parte do pressuposto de que, por isso, a voz de ninguém mais importa. Não lhe importa se a comemoração é sobre o bicentenário da Independência do Brasil ou se muitos outros brasileiros são patrióticos ou têm orgulho dessa data histórica; ele quer monopolizar o evento, usá-lo como sua plataforma política.

Não está ali como chefe de Estado em exercício, mas como candidato. E isso é problemático, pois corrói a democracia.

Nova pergunta da BBC News Brasil: Mas quão problemático?

Resposta de Pereira: Acho que haverá sempre uma área cinzenta. Quando se permite a reeleição e há um presidente em exercício que faz campanha por sua reeleição, sempre haverá uma linha tênue entre o que esse presidente faz como chefe de Estado como parte de seu trabalho e o que ele faz como candidato, porque os dois papéis meio que se confundem. Mas Bolsonaro voou ao Rio e convocou apoiadores. Ele transformou um evento nacional em campanha política.

7 de setembro
Foto: Reprodução

Pergunta: E isso tem precedentes?

Resposta de Pereira: Acompanho a política brasileira desde antes das eleições de 1989 e nunca vi um presidente em exercício fazer o que Bolsonaro está fazendo hoje. Então, eu diria que é. Não é inesperado porque Bolsonaro é essa espécie de líder político, mas acho inédito e algo que não foi feito por nenhum presidente desde a transição para a democracia.

Certamente, o Brasil não teve um presidente em exercício que está em guerra com partes do aparelho do Estado, incluindo o Supremo Tribunal e o Tribunal Eleitoral, ameaça os poderes e fala sobre as eleições serem possivelmente fraudulentas. Não me lembro de Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer fazendo algo assim.

Então, considerando a democracia brasileira contemporânea que se formou nos anos 80 a partir da transição, não há presidente que tenha feito esse tipo de coisa. Acho que é realmente um teste para a democracia brasileira em alguns aspectos.

Lembre-se de que, durante a ditadura, Médici também usou um símbolo nacional — a seleção brasileira de futebol e sua vitória na Copa do Mundo de 1970 — com a mesma finalidade. Claro que são épocas e eventos diferentes. Mas, na ocasião, opositores também foram taxados de anti-patrióticos a partir do lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Pergunta: Mas Bolsonaro não é o primeiro líder a usar símbolos nacionais ou eventos históricos importantes à sua melhor conveniência…

Resposta de Pereira: Esse é um comportamento comum não só entre populistas, mas ditadores. O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump teve seus planos frustrados de realizar um desfile militar no dia da Independência (4 de julho). Políticos como Bolsonaro ou Trump querem associar-se à bandeira, a datas como a da independência, a símbolos que mobilizem a identidade nacional para fazer parecer que eles são os verdadeiros representantes da nação e que seus oponentes não são.

Após vencer o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro disse que os “vermelhos” (em referência à cor do PT e dos movimentos de esquerda) teriam de deixar o país ou ir para a prisão caso não se adequassem às regras. Ou seja, insinuou que aqueles que haviam votado em Haddad (o petista Fernando Haddad, rival de Bolsonaro) de alguma forma não eram realmente brasileiros patriotas. É um tipo de comportamento muito comum.

Pergunta: Mas políticos à esquerda também recorrem ao mesmo expediente…

Pereira: Absolutamente. Sim, esse é um ponto muito verdadeiro. O populismo, que divide as pessoas e recorre ao uso de símbolos nacionais para ganhar força, não se limita à direita, pode e tem sido usado por políticos de esquerda também.

Pergunta: Após o discurso desta quarta-feira, cresce o temor de que Bolsonaro não aceite o resultado das eleições em outubro?

Explicação de Pereira: Acho muito provável, pelo que já conhecemos de Bolsonaro: ele não será um “bom perdedor”. Se ele for derrotado, não vai ser como Kast (o direitista José Antonio Kast) no Chile, que foi até a sede da campanha de Boric (esquerdista Gabriel Boric, vencedor das eleições e atual presidente chileno), o parabenizou e lhe disse “você vai ser o presidente de todos”.

É muito improvável que Bolsonaro, se perder, faça isso com Lula. Infelizmente, ele convenceu uma certa porcentagem de seus seguidores de que se for declarado o perdedor da eleição, isso terá sido realizado de forma fraudulenta.

Portanto, ele já prejudicou a democracia brasileira. Não importa o que aconteça na eleição, porque agora você tem um segmento da população que não confia no sistema eleitoral.

E esse argumento não é baseado em provas, mas em seu próprio interesse em não perder a eleição. É um desserviço à democracia brasileira e esse dano já está feito.

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